Biografia de Swami Sivananda

Swami Sivananda Saraswati (1887 – 1963)
Nascido em uma ilustre família de sábios e santos do sul da índia (dentre eles Appaya Dikshitar, célebre expoente das filosofias Vedanta e Shaivasidhanta), filho de Vengu Aiyer e Parvathiammal, Kuppuswami Aiyer era uma criança que desde cedo manifestava muita afinidade com o mundo espiritual. Seu pai, um piedoso brâmane, que todos os dias fazia seu puja a Shiva, tinha como assistente o pequeno Kuppuswami.
Desde menino manifestava uma personalidade carismática, atraindo sempre todos a sua volta, seja para as muitas brincadeiras que inventava ou espontâneos discursos sobre temas que passavam desde as coisas ordinárias até outras mais filosóficas.
Na sua adolescência, o seu gosto por atividades físicas levou-o a procurar um mestre de artes marciais indianas. Kuppuswami o honrava com grande devoção, trazendo-lhe guirlandas de flores e reconhecendo-o como o seu primeiro guru.
Apesar disso, ele foi obrigado a manter esta relação em segredo, pois sendo o guru uma pessoa pertencente a uma casta inferior, seria mal visto pelos seus pais, que eram brâmanes ortodoxos.
Na sua juventude, seu temperamento magnânimo levou-o a estudar a medicina. Tendo concluído com êxito seus estudos, Kuppuswami tornou-se um dedicado médico, vendo nesta profissão uma oportunidade para melhor servir seus semelhantes. Ainda na faculdade ele já era editor de uma revista que exaltava a saúde e os exercícios físicos. Este almanaque levava o nome de “Ambrosia”.
Seu primeiro desafio como médico seria de administrar todo um hospital localizado nos seringais na Malásia. A maioria dos seus pacientes eram trabalhadores indianos que ali viviam em condições precárias, longe da sua cultura mãe. O atendimento médico dispensado por ele era de uma natureza muito especial, pois além dos medicamentos e tratamentos convencionais, ele era capaz de passar toda a noite ao lado do leito do paciente entoando bhajans ou mantras para a cura do mesmo.
Em sua vida privada, Kuppuswami tinha todos os confortos que a sua profissão permitira, gostando muito de roupas da moda, jóias e automóveis. Conta-se que ele era muito generoso e nunca sequer barganhava qualquer preço com os comerciantes, não se sentindo constrangido com o que os bens materiais o proporcionavam.
Regularmente, como é de bom costume na tradição védica, Kuppuswami gostava de receber visitantes em sua residência, fazendo jus ao mantra athiti devo bhava (o hóspede é tratado como Deus), muitos destes eram sadhus ou monges itinerantes, que em troca de hospedagem concediam bênçãos e ensinamentos ao anfitrião.
Nesta época Kuppuswami já era um entusiasta praticante autodidata de yoga, conhecendo vários asanas e pranayamas através de livros ou breves instruções recebidas de seus ilustres hóspedes. Porém, uma dessas visitas viria a marcar a sua vida definitivamente.
O sadhu em questão era um Swami que lhe deixou um livro que tratava do Advaita-Vedanta ou conceito não-dual da realidade absoluta. Esta leitura, acompanhada de subseqüente reflexão, levou-o a questionar seriamente o seu propósito de vida. Repentinamente ele perdeu a atração pelas coisas que o rodeavam, considerando que mesmo a sua vocação médica era limitada em relação ao tipo de serviço que ele almejava render a humanidade. Ele pensava “estou curando as pessoas fisicamente, porém como posso curá-las espiritualmente?”. Em seguida, resolveu abandonar o seu posto médico na Malásia para retornar a Índia em busca de uma nova identidade para si próprio.
Assim que deixou seus pertences com os familiares que lhe esperavam na estação de trem, Kuppuswami nem sequer os acompanhou de volta a casa, dali mesmo embarcou na sua viagem como Sadhu intinerante, percorrendo os muitos lugares sagrados da Índia. Viajando a pé, ele seguiu a risca as recomendações tradicionais de nunca ficar mais do que três dias em cada localidade, alimentando-se somente das esmolas recebidas(biksha).
Ao chegar em Varanasi, teve o “Darshan” da deidade no famoso templo de Kashi Vishwanath. Ele conta que nesta visão mística fora instruído pelo próprio senhor Shiva de prosseguir a sua peregrinação rumo ao norte, próximo aos Himalaias.
Ao chegar ao remoto povoado de Rishikesh (a morada dos Rishis) no início dos anos 20, imediatamente sentiu-se em casa , sabendo que ali era o lugar onde desenvolveria seu Sadhana (prática espiritual). Foi ao banhar-se nas águas do rio Ganges que teve o encontro mágico com seu Guru -Swami Vishwananda Saraswati- um velho e respeitável renunciante que imediatamente reconheceu no jovem aspirante o potencial de um grande Yogi.
Tendo recebido o nome iniciático de Swami Sivananda dentro da ordem Saraswati de Shankaracharya, seu Guru apenas o instruiu de permanecer em Rishikesh e praticar as instruções recebidas nas poucas horas que estiveram juntos. “Quando o discípulo está pronto, o Mestre aparece”…
Com total diligência e fé(shradda) nos ensinamentos recebidos, Swami Sivananda iniciou o que seriam anos de intensa prática(tapasya) e realizações(samadhi).
Em sua biográfica ele conta, mais tarde, que muitos dos métodos empregados por ele mesmo não seriam recomendáveis a maioria dos seus discípulos, porém no estado de consciência no qual ele se encontrava, estes fluíam com entrega e bem-aventurança. Um dos seus sadhanas preferidos constituía em ficar imerso até a cintura nas águas do Ganges durante o inverno, praticando Japa desde as três da manhã!
Neste período, estava compartilhado entre um quarto no Swarg Ashram e uma cabana construída no meio da floresta onde ele recebia visitas freqüentes de tigres e outros animais das redondezas que permaneciam totalmente afáveis na presença do yogui.
Ele passava a maior parte do tempo absorto entre horas de meditação, estudo intenso (swadhyaya) e vigorosa prática de Hatha Yoga, a qual ele em breve se tornaria um dos grandes propagadores mundiais. Swami Sivananda era extremamente metódico em seus horários e disciplinas, mantinha todas as experiências anotadas em um diário. Assim logo começou a escrever pequenos panfletos que ele dava algum jeito de imprimir e distribuir a todas as pessoas que cruzassem seu caminho. Embora imerso no seu próprio caminho de auto realização, nunca deixou de atender pessoas necessitadas de seus cuidados médicos, que fossem si mples camponeses ou sadhus da região. Notoriamente fazia questão de atender um campo de leprosos o qual mesmo os médicos locais temiam visitar. Dizia enxergar apenas a forma imortal do Ser (atmaswarupa) em cada uma daquelas pessoas.
Assim como o mel chama as abelhas, não demorou muito tempo para que começasse a atrair aspirantes a discípulos. Na época sua reputação de jivanmukta (yogui liberado enquanto vivo)já ressoava em todo o vale do Gharwal (sopé dos Himalaias) e mesmo em outras partes da Índia, aonde seus panfletos ou relatos de pessoas que o haviam encontrado chegassem.
Mesmo assim Swami Sivananda ainda não tinha planos de abrir ashrams ou institucionalizar seus ensinamentos, preferia seguir o seu trabalho de uma forma silenciosa e potente. Aos poucos que se aventuravam a receber suas instruções diretas, impunha disciplina e condições espartanas, filtrando uma grande quantidade de curiosos.
Quando o número de visitantes começava a perturbar sua paz, decidiu-se mudar para a outra margem do Ganges em Rishikesh, onde havia apenas uma selva. Este ambiente, portanto, não desencorajou seus seguidores mais sincero, e durante a metade dos anos 30, ali mesmo surgiu entre algumas choupanas e edificações precárias o Sivananda Ashram.
Sivananda inspirava aos seus estudantes por força do seu próprio exemplo pessoal. A sua vida era como um livro aberto, todos podiam vê-lo humilde, sereno seja servindo ou cantando Kirtans.
Vivia sempre alegre, no espírito do Mahavakya vedântico “Tat Twam Asi”(tu és aquilo-Brahman).Seus alunos aprendiam muitas coisas ao meramente observá-lo.
Em suas póprias palavras exaltadas:
”Vi a Deus em meu próprio Ser.
Negando os nomes e formas, o que permanece é existência-conhecimento-bem aventurança absolutas (sat-chid-ananda) e nada mais.
Contemplo-O em todas as partes, não existem véus.
Sou uno, não há dualidade.
Vivendo em meu próprio ser, minha felicidade está além de qualquer descrição.
O mundo dos sonhos desapareceu. Existo apenas”.
Em 1936, foi oficialmente inaugurada a Divine Life Society (Sociedade da Vida Divina), nome escolhido pelo próprio Swami Sivananada para designar o espírito das práticas ali conduzidas que constituía o seu “Yoga da Síntese.”
Este poderia ser subdividido em quatro abordagens distintas do Yoga, que na visão conciliadora de Swami Sivananda seriam práticas complementares e necessárias para o desenvolvimento do ser como um todo. Karma Yoga (Yoga da ação), Bhakti Yoga (Yoga da devoção), Raja Yoga (Yoga da meditação) e Jñana Yoga (Yoga do conhecimento). Todos eles já se encontram devidamente delineados na escritura clássica do Bhagavad Gita, o qual Swami Sivananada também escreveu um importante comentário (bhasya).
Swami Sivananda dava uma ênfase importante no exercício do trabalho desinteressado como uma forma de purificar as inúmeras tendências latentes do ego. Assim, seus discípulos, ao chegarem ao seu ashram, eram imediatamente submetidos a este “tratamento”. Assim foi o caso de Swami Vishnudevananda, que ainda adolescente, aspirava aprender técnicas avançadas de Kundalini Yoga e Hatha Yoga com o mestre. Logo ao chegar, o jovem recebeu a primeira instrução formal que era de ficar vigiando lentilhas que secavam ao sol, com um bastão na mão, para prevenir que os macacos (abundantes nos bosques da região) as levassem. Similarmente todas as pessoas que entravam em contato com Swami Sivananda recebiam, na dose exata de suas capacidades, orientações imediatas e poderosas no sentido de preparar-lhes para o verdadeiro propósito do Yoga ou da vida humana.
Com um temperamento devocional bastante ecumênico, Swami Sivananda também permitira que várias manifestações religiosas pudessem ocorrer no ashram em ocasiões especiais. Na época isto era pouco comum na Índia, que por tantos anos foi dominada pelos muçulmanos e ainda estava sob colonização inglesa durante a sua vida. Swami Sivananda aceitava como visitantes pessoas de todas as castas, credos ou sexo, incluindo mães solteiras ou viúvas, geralmente muito descriminadas na sociedade indiana. Igualmente foi um dos primeiros a conceder iniciação na vida monástica as mulheres, o que lhe rendeu memoráveis críticas de seus contemporâneos mais conservadores e rabugentos!
Em sua imensa obra literária (mais de duzentos volumes), Swami Sivananda resgatou aspectos até então mantidos secretos da prática do Hatha Yoga e do Raja Yoga de Patanjali. Nos seus primeiros livros como a “Prática do Yoga” fazia questão de escrevê-los como verdadeiros manuais práticos, tornando-os acessíveis ao grande público e não apenas a elite intelectual da época. No livro “Concentração e Meditação” ele chegou a publicar as suas próprias experiências obtidas em estado elevado de consciência, porém publicou-as com pseudônimos alheios para que estas não soassem como apologia aos seus méritos yoguicos.
Na verdade, ele só poderia publicar experiências que fossem comprovadas na sua realização, evitando polêmicas filosóficas ou quaisquer outros artifícios literários.
“A meditação regular abre as avenidas do conhecimento intuitivo, faz com que a mente seja calma e serena despertando um sentimento extático que põe o estudante do Yoga em contato direto com o supremo Purusha. Muitas dúvidas serão aclaradas por si mesmas através da prática da meditação”.
No famoso livreto “Thought Power” –O Poder do Pensamento- ele nos diz:
“Todo impulso da mente, todo pensamento é transmitido às células. Estas se vêem extraordinariamente influenciadas pelas distintas condições ou estados mentais. Se há confusão, depressão e outros pensamentos ou emoções negativas na mente, estes são telegraficamente transmitidos através do sistema nervoso a todas as células do corpo.
“O pensamento é um poder vital, vivo e dinâmico, a força mais vital, sutil e irresistível que existe no universo.”
Assim ele mesclava conceitos científicos, médicos e espirituais, como um precursor da corrente de “auto-ajuda” que vemos hoje em dia.
Em seu trabalho de disseminação do conhecimento (Jñana-Yagna) foi auxiliado por muitos jovens e brilhantes discípulos. Era uma cena comum encontrar, no seu escritório, a beira do Ganges, seis ou sete de seus discípulos datilografando simultaneamente livros do mestre. Swami Sivananda era capaz de ditar os respectivos trechos dos livros a todos eles sem nunca perder o fio da meada.
Aos poucos muitos visitantes estrangeiros começaram a visitar o ashram. Swamiji lhes dava atenção e carinho especiais, introduzindo-os, suavemente, as nuances da cultura indiana ao mesmo tempo em que lhes ensinava as várias técnicas do Yoga e da filosofia Vedanta, dentro da qual se considerava um expoente prático. Ele resumia ensinamentos dos Upanishads em simples frases ou slogans para que as pessoas pudessem assimilar mais rapidamente o seu sentido e aplicação: Serve, Love, Give, Purify, Meditate, Realize (Sirva, Ame, Dê, Purifique, Realize) era o seu favorito.
Empreendedor mesmo para os moldes atuais, funcionavam dentro do ashram uma biblioteca, uma impressora, um museu do Yoga, laboratório fotográfico e especialmente um hospital beneficente, atendendo pacientes que vinham para tratar desde enfermidades comuns até cirurgias de olhos. Ali também havia uma farmácia ayurvêdica e homeopática.
Dentre os seus mais importantes discípulos, que viriam a dar continuidade ao seu trabalho em anos futuros, temos os nomes de: Swami Chidananda e Swami Krishnananda (nomeados presidente e secretário do ashram após seu mahasamadhi), Swami Venkatesananda (autor de excelentes livros e grande orador), Swami Vishnudevananda, Swami Satchidananda, Swami Satyananda, Swami Jyotirmayananda, Swami Chinmayananda (fundadores de renomadas instituições que disseminaram o conhecimento do Guru em todo o mundo).
Juntos, enquanto ainda viviam no ashram de Swami Sivananda, eles formavam o corpo docente da chamada Yoga Vedanta Forest University, uma instituição fundada em 1948 cujo objetivo era transmitir os mais nobres aspectos do Yoga e do Vedanta a alunos vindos de todas as partes. Swami Vishnudevananda ficou encarregado com o ensino do Hatha Yoga, pois dominava com maestria e aptidão esta ciência milenar. Foi também ele o primeiro discípulo enviado por Swami Sivananda ao ocidente no final dos anos 50, fundando os Sivananda Yoga Vedanta Centers.
Graças ao seu trabalho, muitas pessoas conheceram a Sivananda, tendo escrito o best seller “The Complete Illustrated Book of Yoga” em 1960. Esta obra foi fundamental ao trazer a prática do que hoje se conhece como Sivananda Yoga em todo o mundo. Vishnudevananda popularizou uma sequência de doze asanas principais que eram praticados Rishikesh, aliadas a técnicas de pranayama, relaxamento, alimentação vegetariana e meditação.
Da mesma forma, cada um de seus discípulos trouxe a sua contribuição perene ao estabelecimento de uma consciência global em relação ao Yoga. Sem nunca ter saído da Índia, Sivananda alcançou praticamente todas as culturas. Desde o início ele mantinha contato com pessoas em vários países, escrevendo sucintas instruções em forma de cartas a mão, que foram mais tarde compiladas em um livro chamado “Sivananda Upanishads”. Muito inspiradoras, percebemos o seu espírito pragmático e encorajador ao lê-las.
Os últimos anos da sua vida foram marcados por enfermidades naturais para quem passara tantos anos em abnegado sacrifício em prol dos demais. Mesmo assim Swamiji nunca deixou de continuar a trabalhar, estivesse em uma cadeira ou deitado. Contam os seus discípulos que a sua força de vontade era tamanha, que se necessário era capaz de simplesmente se levantar e cumprir tarefas como se nada estivesse lhe perturbando, logo após retomando a sua posição de “doente”.
Aceitava esta sua condição com leveza, referindo-a a última parte de Prarabdha Karma (resíduos kármicos) que lhe restava.
Tendo seu Mahasamadhi (liberação final do corpo) em 14 de julho de 1963, as suas últimas palavras foram “Attach, Detach” (apegue, desapegue) no sentido de desapegar-se do corpo transitório e apegar-se ao espírito imortal.
Ele será sempre lembrado por todos os aspirantes do Yoga pelo seu amor,humor e sabedoria.
Om Tat Sat
Por Gopala

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